Archive for the ‘Entrevistas’ Category
Postado por André, August 26th, 2008
Continuação da Entrevista com Hoshino, Miyazaki e Suzuki publicada no começo dos mês. A entrevista agora continua seguindo um rumo diferente: As novas contratações do Studio Ghibli.

KOJI HOSHINO “Nós recrutamos novatos todos os anos?”
MIYAZAKI “Nesses últimos anos, nós não fizemos isso. Eu pedi para que o recrutamento parasse.”
HOSHINO “Porque vocês pararam?”

MIYAZAKI “Todo anos nós costumávamos contratar 4 ou 5 novatos. Apesar disso, eles eram logo incorporados no grupo dos mais antigos e por isso acabavam não trazendo nada de novo para o estúdio. Eles não se comportavam como novatos. Nenhum ar de novidade vinha deles, então parei de contratar. Atualmente, a indústria de animes importa seu trabalhadores de países extrangeiros como China ou Filipinas. Por isso a relação entre empregados e empregadores não é mais tão apertada como costumava ser. Nós podemos trazem gente de fora facilmente hoje em dia.”
HOSHINO “Você quer dizer que o volume de animes está diminuindo?.”
MIYAZAKI “Pelo menos no Japão está sendo assim. [...] Basicamente os animadores que eram recrutados regularmente não são curiosos e não tem interesse em outras pessoas. Eles não querem influenciar e nem serem influenciados. Normalmente eles trabalham usando fones-de-ouvido. Mas eu não sei o que estão ouvindo. Acho que eles são um grupo de merda. Falei demais (rindo)? De qualquer forma, nosso pessoal percebeu que bons filmes não podem ser feitos somente pelos animadores mais antigos. Então nós trocamos nossa política e estamos recrutando jovens desenhistas.
HOSHINO “Quantas pessoas vocês vão pegar?”

MIYAZAKI “Mais ou menos 20 de uma vez. Se nós pegássemos aos poucos, eles seriam logo englobados pelo grupo. Basicamente, o valor de se criar um estúdio é manter o tronco. Se precisássemos de mãos ou cabeças novas, poderíamos pegá-las de fora. O tronco precisa ser um grupo de pessoas confiáveis e pacientes. Mas isso não é fácil de se manter.”
HOSHINO “Você quer dizer então que você vai construir o tronco com os novatos?”
MIYAZAKI “Isso mesmo. Nosso tronco está um pouco deteriorado (risos). Uma vez que estivermos com nossos animadores e ensinarmos tudo a eles. Assim eles irão se tornar profissionais e nós teremos nosso investimento de volta.
HOSHINO “Você vai ter algo a mais do que semear dinheiro (risos)?
MIYAZAKI “Sim. Na verdade vou grelhá-los como rabanetes e espreme-los (rindo). Fazer uma animação significa sugar o sangue dos jovens talentos como um vampiro.
SUZUKI “Mas eu não consigo mais sugar todo esse sangue. O tronco está agora em pele e osso. Só consigo sugar água, mas sangue não. Então precisamos renovar o tronco. Se conseguirmos reconstruí-lo, pode ser que brotem também uma cabeça e mãos. Eu não quero que esses novatos sejam influenciados pelos veteranos que já tem seu talento lapidado. Também quero que eles tenham uma vida estável e tranqüila, o que significa que o treinamento será em uma cidade pequena.

“Eu devo Avisá-los: Vocês vão passar um ano e meio como um monge. Sem ver nada; sem informações ou notícias. Levantar cedo, vir para o instituto as 9 da manha e trabalhar duro até as 5 da tarde. Durante esse período vocês não poderão utilizar celulares, e-mails ou iPods. Deverão se dedicar em ver o mundo e desenha-lo. Então nós iremos garantir seu salário e existência. Você pode aprender tudo o que precisa, mesmo se for em uma cidade rural. Se você aguentar isso por um ano e meio, vai ter como resultado algo bem melhor do que 10 anos de enbromação em Tokyo.
HOSHINO “Vocês pretendem recrutar pessoas que já tenham experiência?”
MIYAZAKI “Não, Nós estamos procurando por verdadeiros novatos. Eu irei ensiná-los como se desenhar. Se eles conseguirem completar a curta metragem e puderem ver as crianças se divertindo no museu quando a curta for exibida, eles ficarão mais confiantes.”
SUZUKI “Nós podemos até acabar encontrando um grande talento entre eles.”
MIYAZAKI “Eu visitei o Aardman Studio na Inglaterra. Ao invéz de ser em Londres, ele fica em Bristol, a uma hora de trem de Londres. Bristol é só uma pequena cidade. Ao redor do estúdio exitem apenas algumas fábricas e verde, nada mais. No estúdio tem uma lanchonete muito legal comandada por dois chefs. Os dois altos e musculosos. Acho que aos domingos ele vão para o estádio de futebol. Eu quero chefs como aqueles… (risos)”


Considerações à parte…
Essa nova política de recrutamento remete à época em que Miyazaki estava procurando um substituto para poder aposentar. O lançamento de Mimi wo Sumaseba, em 1995 é uma prova disso. Yoshifumi Kondo era um dos maiores talentos do Studio Ghibli e seu primeiro filme mostrava que ele estava pronto para fazer animações de qualidade. Com sua morte, porém, 3 anos depois foi uma grande desilusão para todo o estúdio. Com a perda de um dos melhores diretores da época, todos os planos de Miyazaki foram por água a baixo e isso fez com que o corpo do Studio Ghibli se deteriorasse, como foi dito na entrevista. Hoje, 10 anos depois da trágica morte de Kondo, Miyazaki parece querer tentar mais uma vez.
É um grande passo na história do Studio Ghibli. Essas novas contratações significam que muito provavelmente Miyazaki ficará pelo menos 2 anos sem se dedicar a nenhuma outra longa. E todo esse tempo será preciso para definir o futuro do estúdio. Tenho altas expectativas e boas esperanças.
Isso é tudo pessoal!

Parte 1
Postado por André, July 28th, 2008
No tradicional programa de rádio japonês do Studio Ghibli (Ghibli Asemamire) da semana passada, o diretor Hayao Miyazaki em pessoa foi falar um pouco sobre como foi fazer o seu novo filme Ponyo (??????? ,Gake no Ue no Ponyo). Do programa participaram ele, o presidente do Studio Ghibli, Hoshino Koji e o anfitrião, ex-presidente e atual diretor executivo, Suzuki Toshio. O site GhibliWorld postou a conversa entre eles que será traduzida aqui em 2 partes.

Sobre o começo da produção de Ponyo – Miyzaki diz, “No começo, Ponyo não estava nos planos. Tinha um garoto, mas ele não tinha nome. Tinha também uma casa em um penhasco. Ela estava vazia por um bom tempo até que um cara estranho passou a morar lá. A pessoa já era o Fujimoto (O Pai de Ponyo na versão final). O Fujimoto perguntou para o garoto, “Você não viu nada de estranho por aqui?”. Nessa parte, o que ele estava procurando não era Ponyo e sim um sapo mecânico de brinquedo. Isso porque eu estava planejando a história baseado no livro infantil Kaeru no Eruta de Rieko Nakagawa. Eu tentei transforma-lo em um enredo por um tempo, mas percebi que seria impossível e acabei desistindo. Apesar disso, eu ainda levei o livro comigo para Tomonoura. De qualquer forma, as histórias de Nakagawa tem uma falta de lógica incrível. Ela é uma escritora que consegue explicar tudo sem nexo nenhum. Ela costuma dizer “Porque precisa de mais explicações?” Ela não precisa de regras.”
Quando foi então que você decidiu fazer o filme sem regras, lógica ou explicações? Miyazaki respondeu, “Se eu fosse contar-lhe tudo o que ocorre no meio tempo em que o filme se passa, demoraria horas. O que eu devo fazer? Decidi correr o risco de deixar coisas de fora. Existe uma teoria sobre como criar uma história, como quando uma pessoa encontra outra, a história se desenvolve, um pequeno clímax no meio, um maior no fim e depois um final feliz fecha a história. Isso é muito comum em peças com Samurais, em Bang-Bangs e investigações. Se um diretor repete esse molde, os filmes dele começam a decair. Eu sei que tem pessoas repetindo esse estilo várias vezes sem hesitar. Apesar disso, devemos perceber isso por nós mesmos. Se eu começar a fazer um filme com uma história previsível, logo percebo que há algo errado (risos). Nesse caso, eu jogo tudo fora. Trabalhar mais em coisas assim só pioram a situação. Eu acho isso.”

Sobre Ponyo, sentimos sua intenção em tirar o excesso de história… Miyazaki notou, “Aquela tempestade foi causada por Ponyo. Ela só queria se encontrar com Sosuke de novo. Então ela não tinha nenhum má intenção. Não podemos culpa-la. Esse é o tipo de personagem que eu queria que fosse a heroina.

Parte 2
Postado por André, July 19th, 2008

Hoje, dia 19 de Julho de 2008, estreia finalmente Ponyo nos cinemas japoneses. Hoje todas aquelas pessoas que conseguiram reservar seus ingressos para as concorridas exibições vão assistir ao filme que já encantou todo mundo que assistiu. Nesse grande dia começa também a contagem dos dias que Ponyo demorará para chegar no Brasil. Ainda não se sabe a data, mas uma animação tão importante como essa deverá vir em poucos meses!

Para comemorar essa data tão importante, segue abaixo um índice atualizado (29/07) de todas as principais matérias sobre o filme no Gopanda!
02 de Março: Entrevista com Toshi Suzuki (primeiras revelações)
12 de Março: Ponyo News (novidades)
23 de Março: Aquerela inédita do Filme (mapa do cenário)
11 de Abril: Ponyo ga Kuru! (novidades)
29 de Abril: Entrevista com Joe Hisaishi (novidades sobre a ost)
14 de Maio: Ponyo Music (download)
10 de Junho: Ponyo está chegando (novidades)
30 de Junho: Primeiras impressões (review)
30 de Junho: Primeiro Trailer oficial (download)
07 de Julho: Ponyo está chegando 2 (novidades)
17 de Julho: As entrelinhas de Ponyo (curiosidades)
22 de Julho: Download da trilha sonora completa (download)
26 de Julho: Repercussão no Japão e Novo trailer (novidades)
27 de Julho: Repercussão entre brasileiros no Japão (novidades)
28 de Julho: Entrevista com Miyazaki sobre o filme (curiosidades)
29 de Julho: DOWNLOAD DO FILME (downloads)

Logo, com todos os fãs japoneses assitindo Ponyo teremos ótimas novidades que, é claro, serão postadas aqui! Não tenho palavras para descrever minha alegria ao ver mais um filme do Miyazaki sendo lançado mesmo com todas as dificuldades! Faço meus votos para que o Miyazaki também esteja tão satisfeito quanto eu e continue trabalhando com muita saúde por vários anos!!

Gostaria também de agradecer novamente a Thais pelo grande apoio e carinho que ela tem com esse blog.
Postado por André, May 11th, 2008
Em Janeiro de 1995, o fanzine japonês Comic Box publicou uma série de artigos sobre Hayao Miyazaki. Entre eles uma longa entrevista realizada por Ryo Saitani sobre o fim de Nausicaä. A partir de hoje, o Go-panda, vai postar esses artigos traduzidos, a começar pela ótima entrevista. Leia com cuidado, pois apesar de não ter nenhum grande spoiler nessa primeira parte, ambos fazem referências a trechos da série que ainda não foram lançados no Brasil.

Ryo Saitani: Gostaria que você contasse como aconteceram as mudanças na história e nos personagens do começo para o final e comparasse as versão animada e a versão em quadrinhos. Além disso, acredito que a Nausicaä seja uma personagem muito especial, então gostaria que você falasse sobre ela separadamente dos outros personagens e falasse também sobre a teoria dela.
Miyazaki: “Teoria” é uma palavra estranha. Eu acho que eu não a usaria.
Ryo: Entendo. Gostaria de fazer algumas perguntas sobre Nausicaä no contexto da obra como um todo. Gostaria de saber como a sua visão do mundo e da civilização estão refletidas em Nausicaä
Miyazaki: Isso não é algo que eu possa dizer assim [risos]. Isso deveria ser discutido por outras pessoas.

Ryo: Quais são as suas considerações sobre os personagens? E como o papel de cada um mudou desde o começo? Eu ouvi dizer que os personagens geralmente agem por si mesmo, mas isso realmente aconteceu ou você estava controlando as ações deles? Por favor, fale um pouco sobre eles.
Miyazaki: Se eu tivesse escrito a história de uma vez, eu ainda estaria empolgado com ela e poderia falar sobre ela. Mas ela foi escrita durante muito tempo e quando eu a terminei, ela havia se transformado em algo “maçante”, então eu não quero falar sobre isso.
Quando a série terminou, eu não tive nenhum sentimento de realização, nenhum sentimento do tipo “Acabei! Eu consegui!”. Em 1993, eu pensava que a séria seria acabada em um ano, mas apesar de eu ter trabalhado fervorosamente por dois meses depois disso, eu ainda não estava satisfeito. Eu sabia que fisicamente eu estava pronto para terminá-la. Saiba que eu não tinha ninguém me pressionado para acabá-la naquele momento, foi algo que decidi por mim mesmo. O editor me disse que eu poderia continuá-la por quanto tempo eu quisesse.
Assim, decidi acabá-la por espontânea vontade. Mas ainda tive dúvidas se isso era o certo a fazer, então eu evitei ficar olhando a história até aquele ponto. Eu havia recebido cópias de todos os capítulos do Yoshi Kobayashi (o encarregado do departamento de edição da Animage), mas não senti vontade de lê-los. Eu estava assustado. [risos] Finalmente, para terminar o ultimo volume, eu olhei os capítulos 2 dias antes de entregar tudo. Não sem tremer muito. De certa forma eu estava aliviado. Eles estavam [muito]* bons – apesar de ser estranho dizer isso sobre o próprio trabalho. Não que eu tivesse esquecido aquilo que havia escrito, e sim que eu me esforcei para esquecer. Foi assustador. O que eu escrevi? [risos] Foi doloroso. É verdade! Eu ainda fiquei imaginando se aquela era a conclusão adequada para Nausicaä, mas não conseguia me convencer. Até agora não tenho certeza.

Ryo: Acho que pode ter sido melhor terminar a história em um ano. Nos últimos sete dias da história, no cemitério de Shuwa, o clima da história havia mudado e ela foi concluída toda de uma só vez. De um ponto decisivo, até o clímax, foi excitante, mas a história até aquele ponto tinha provocado uma atmosfera de alta civilização, e logo ela se transformou em espiritualismo ou misticismo.
Miyazaki: Sim, de fato, Isso ocorreu devido ao fato de Nausicaä e o Ohmu estavam juntos sem mais ninguém.
Ryo: E isso foi bom, não foi? Apesar de fazer parecer que a história foi concluída de uma só vez.
Miyazaki: Continuar Nausicaä por aquele ultimo amo foi realmente difícil apesar de não saber exatamente o porquê. Acho que o problema era que eu tinha que escrever o que eu não sabia!! Escrever o que se sabe é uma coisa, mas eu tinha que escrever sobre o que eu não sabia. Quando dei vazão as minhas confusas idéias, vários pontos fracos apareceram e eu tive que lidar com eles.
Em outras palavras, enquanto esses pensamentos sobre como o mundo de Nausicaä era estavam flutuando pela minha cabeça, eles ficavam colidindo com outras idéias, uma vez que eu estava planejando esse mundo desde 1980. E isso levou a vários problemas. Algumas coisas simplesmente não faziam sentido. O mundo não poderia ser tão inconsistente. Eu fui forçado a repensar o significado do Mar Podre, por exemplo, ou o que exatamente o Ohmu representa.

Quando eu estava escrevendo, eu não escrevi baseado presumindo que “isso” era lógico, então “aquilo” também tem que ser. Ao invés disso, eu pensava, se “isso” é o que vai acontecer, então “aquilo” é o que vai vir depois. Por exemplo, como eu já estava pensando que a Nausicaä se machucaria de alguma forma, eu presumi que ela iria acreditar que a mãe dela não a amava. Os leitores conseguiriam se compadecer com isso e isso iria dar-lhes uma alça na personagem. Para finalizar isso tudo, tudo deveria se unido, certo? [risos] Foi realmente cansativo. Eu tive que ir tão longe que cheguei a pensar no sentido da vida. Eu não sei, então foi muito difícil.