Depois de terminar um trabalho, você sempre diz que será seu ultimo filme. Isso também vale para Ponyo?
Mesmo que eu diga isso, não tenho como acreditar que conseguirei me aposentar. Por isso vou me poupar o trabalho de dizer.
Como você está preparando o Studio Ghibli para o dia em que você realmente se aposentar?
Faz tempo que nos preparamos para isso. Estamos constantemente procurando novos artistas e diretores. Também entramos em acordo que mesmo após a minha saída, continuaremos fazendo animações a mão livre.
Por que insistir em animar a mão livre quando todos usam computação gráfica?
São duas razões muito simples: a primeira é que eu gosto de animar usando apenas um lápis. A segunda é que não sei como usar computação gráfica. Admito que pode-se fazer coisas maravilhosas com outras técnicas de animação. O trabalho da Pixar com CG é maravilhoso, e a Nick Park, na Inglaterra, faz um ótimo trabalho em Stop Motion. Apesar disso não temos a necessidade de sair para competir com eles.
De onde veio a idéia para se produzir Ponyo?
Para criar um filme, eu gosto de lançar uma rede no oceano da minha imaginação e ver o que eu consigo pescar. Um dia desses, apareceu um peixinho chamado Ponyo que me chamou a atenção. Acho que essa é a melhor descrição da fonte das minhas idéias. Para converter essas idéias em realidade, eu começo a pensar muito e desenhar os storyboards. Depois de ter a idéia mais concretizada, eu chamo três animadores que sempre trabalham comigo, e antes mesmo de saber qual será o final do filme, começamos a animar pequenos trechos da animação.
Como você define a mensagem desse filme?
Que é maravilhoso estar vivo. Não só nós, humanos, como também o planeta e o oceano.
De fato, todos os seus filmes tem uma mensagem ecologista por trás…
Isso é porque eu acredito que todos devem fazer um esforço para defender o Meio Ambiente, ainda que a essa altura eu acho que não há mais o que fazer. Todos sabemos que o planeta está em apuros e não é por falta de filmes com essa mensagem. Mesmo assim, quando eu desenho o mar, não tenho outra escolha a não ser desenhá-lo cheio de lixo, e lamentavelmente, eu tenho que dar mais realismo a esse lixo do que o mar precisa.
Como você faz para ainda conseguir ver o mundo com os olhos de uma criança?
Quando eu estava criando meus filhos, estava tão ocupado com meu trabalho, que perdi muitos detalhes da infância deles. Assim, hoje eu me sinto mal por não ter sido um pai melhor. Pelo menos atualmente nós temos no Studio Ghibli uma pré-escola para os filhos dos funcionários. Poder observar essas crianças é uma grande fonte de inspiração para mim. Principalmente porque eu vejo que para eles, cada segundo que se passa carrega algo de interessante. Estão o tempo todo aprendendo coisas novas e nunca param quietos. Acho que agora me dou conta dessas coisas porque estou velho. Além disso, quando eu os observo, lembro de fatores da minha própria infância, e por isso acho que posso entende-los até melhor do que entendia antes.
Qual é o significado, para você, de toda a fama e dinheiro que seus filmes trouxeram?
Toda vez que eu termino um filme e os espectadores assistem, eu fico pobre. Por isso, como faz relativamente pouco tempo que Ponyo saiu nos cinemas, estou atravessando uma situação de pobreza. Não tenho nada no meu interior. Por isso, não há outro remédio a não ser lançar minha rede ao oceano e ver que outra idéia eu consigo pescar para a próxima história.
Por que você acha que o anime está fazendo tanto sucesso em todo o mundo?
Essa pode ser uma concepção errônea. Nem todo anime vai bem no Japão. Na verdade, a animação japonesa precisa ressuscitar pois está em um estado muito deplorável. No mundo dos desenhos animados no Japão, é produzida uma grande quantidade de lixo. Mesmo assim, no Japão, o anime ainda se sobrepõe aos filmes com atores em carne e osso. O cinema japonês de ficção está passando por um mal momento.
Qual o motivo disso?
Suponho que isso tem a ver com o fato de não podermos ver os japoneses como heróicos. Nenhum personagem de nossos filmes tem qualidades heróicas. Os personagens não são atraentes porque não tem suas qualidades humanas destacadas.
Você sente que a invasão dos filmes norte americanos de desenhos animados pode estar causando dano ao anime japonês?
Acho que não, afinal eles não têm tanta influência aqui. Eu não acredito que a animação possa ter uma influência muito poderosa para uma sociedade.
Você sente uma responsabilidade para revitalizar os animes sendo a voz mais forte no gênero nos últimos anos?
Não. Nós temos nossa própria paixão e nossos próprios princípios pelos quais nos guiamos. Nunca tentamos copiar ninguém. Nossa empresa, incrivelmente, é a que está menos focada no aspecto comercial. Não fazemos as coisas pensando em quanto conseguiremos ganhar. E mesmo assim, nossa empresa é a de maior destaque. Eu conheço os produtores de Pokemon e outros animes populares, mas nós vivemos em mundos diferentes.
Algo que sempre chamou atenção do ocidente, é que os personagens de anime não se parecem com os orientais. Qual o motivo disso?
Acho que através da televisão e do cinema, chegamos a um pouco onde tudo se parece um pouco. Todos os humanos se parecem no mundo da animação. No Japão, desenhar olhos puxados só para que tenham um toque oriental, seria algo muito estranho tanto para os espectadores quanto para nós desenhistas.
Quanto os filmes da Disney influenciaram-lhe?
Eu as vi, mas nunca tiveram uma influencia importante em mim. Os irmãos Fleischer, criadores do Popeye, esses sim me influenciaram e também alguns outros animadores antigos que já foram completamente esquecidos.
John Lasseter sempre disse que você é um de seus mentores…
Nunca me dei conta de que ele foi um de meus aprendizes. Eu o vejo mais como um grande amigo. Quando o conheci, ele tinha pouco mais de vinte anos e não havia nenhuma chance de fazer longas de animação; parte por culpa da dificil situação em que a industria de desenho animado norte americana se encontrava. Eu conhecia vários animadores nessa época, e o John se destacava pois estava trabalhando sozinho, com paciencia e paixão. Quando soube que Toy Story havia sido um grande sucesso, me alegrei muito porque sabia que era algo realmente merecido.
O que você se lembra do seu trabalho com Heidi?
Viajei para a suiça para me familiarizar com o mundo que teríamos que retratar. Fiquei algum tempo por lá, mas não o suficiente para poder compreender totalmente a cultura do país. Por isso, quando soubemos que a séria havia sido comprada e seria exibida tanto na Europa quanto no resto do mundo, todos os que estavam envolvidos com o anime queria se esconder debaixo da escrivaninha porque sabiamos que não tinhamos conseguido retratar com precisão o mundo dos Alpes suiços.
